Olá!!Bienvenidos!zdravstvuyte!welcome!Bienvenue!Bem-vindo!Há aqui um "poucadinho" de literatura, comentários sobre livros, histórias e afins!!!
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Leitor
Leitor
Espia fundo
Há esperança na palavra
Espera diluída no mundo
Na angústia há breve ânsia
Existe um companheiro?
Reside num solitário sonho
Nele caminha distante
D'onde observa meus incertos passos
Mundo, vasto como o de Carlos
Vejo José, a pedra, Raimundo
Respira Fundo
Há esperança leitor
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Primeira mandante
Leo estava fechado no quartinho de despejo dos fundos. Mayara teve medo, pois o vínculo de sangue deles estava morto. Ela queria dizer algo que o impedisse o primo de sumir no mundo novamente. Por que algo nele impelia a isto? Leo já não era um rapaz de vinte anos de idade, portanto, sabia da própria vida. Ele não queria ver a moça.
Mayara arriscou-se e apertou a maçaneta com força na esperança que a porta estivesse trancada. Não estava. Leo sabia que a prima viria atrás dele. Quando ela entrou ele estava no fundo do quarto atulhado de ferramentas e caixas. A moça o viu carregando uma arma. O primo andava armado desde quando? Leo fitou Mayara com aqueles olhos verdes: misto de cansaço e tristeza.
-Você quer segurar? Aquelas palavras cravaram na espinha da moça. Estava óbvio que Leo a culpava por tudo. O acontecido, afinal era erro de ambos. Eles apenas esperavam o tempo prescrever. Entretanto, a lealdade construída na infância estava abalada.
-Quer que eu segure uma pistola? Perguntou incrédula com aquela cara de paisagem que irritava o mundo.
-Não entendo o seu espanto, pois já não o fez? Carinha de anjo não segura arma, mas se suja de sangue? Respondeu Leo com asco.
-Segura agora! Imperou o homem com raiva.
-Não vou pedir desculpas! Disse ele ao guardar a arma sem esperar a aproximação dela para cumprir a ordem.
-O que eu te fiz? Aquelas palavras saíram soltas, cínicas chacoalharam no ar e perderam a força. Mayara sabia.
- Não importa o feito, mas sim o que aconteceu depois. Disse ainda com a voz tremula.
- Para você não importa o feito, mas cumprir a pena. Respondeu Leo com um leve sorriso.
Mayara fitou o entorno cheio de caixas. Lembrou-se dos dias que passaram na rede, Leo, ela e as amigas. Eles balançavam a toda a velocidade na varanda da casa do avô. Ele não a enxergava. Leo arriscava-se roubando beijos de suas amigas mais velhas. Complacente Mayara assistia a tudo. Leo enxergava apenas uma criança. Estavam agora ambos, gastos pela vida. Melhor assim. Pensou ela. Era odioso ser aquele anjo assexuado, medroso. Foi de anjo que ele a chamou com desprezo. Repensou, enquanto o olhava.
- Nada mudou. Disse Mayara.
- Mudou sim. Você me acha horrível, não é? Você me acha um bandido desde aquela época. Agora sou o que o Bola seria. Disse Leo.
A menção aquele nome daria o tom da conversa daquele momento em diante. Estavam no quartinho fétido para remoer o passado. Era por isso que falavam baixo, evitaram se encontrar por dez anos. Morto o vínculo ele queria enterrar tudo. Mayara pensou nas palavras a dizer, aproximou-se mais e segurou aquela mão grossa, calejada.
- Não estou achando nada. Estou pensando em muitas coisas não ditas. Respondeu por fim apertando-lhe os dedos dele com sua mão magra e pequena.
- Vejo pela sua mão que pouca coisa a afetou! Não quero mais ver a sua cara de tacho aqui. Vai embora disse empurrando com força a mão de Mayara!
- Some! Disse Leo apontando a porta.
- Não temos nada em comum, saio e acabou. Respondeu Mayara com impaciência.
- Você não me dizia muito, mas eu sempre tentei te proteger. Você é uma ingrata que ajudei. Disse vagamente Leo.
- Eu sei. Depois? Respondeu Mayara de braços cruzados olhando fixamente para o primo.
- Depois daquele dia, o que eu fiz levou a todo o resto. Sempre a polícia atrás de mim e se me pegarem... ziguezagueou Leo.
Mayara adivinhou tudo e doeu-lhe na alma ver o primo ser condenado. Passaria o resto dos dias na cadeia ou seria morto.
- Você sofre demais menina! Pior, por nada. Respondeu Leo.
A conversa foi interrompida abruptamente, quando a mãe de Leo abriu a porta e encontrou os dois primos dentro do quartinho com a pequena janela fechada. Mayara não teve coragem de encarrar a tia e saiu sem dizer nada. A mulher morena e baixinha continuou na porta com um semblante sem graça. Depois que a sobrinha já tinha atravessado o quintal a mãe de Leo falou:
- O que estava acontecendo aqui?
- Nada de importante com essa idiota! Respondeu Leo com afetação.
- Ela queria mexer nas caixas, mas eu não deixei. Afirmou Leo.
- O que Mayara ia fazer com as ferramentas ? Perguntou a mulher desconfiada.
- Sei lá! Disse Leo saindo do cômodo.
sábado, 1 de setembro de 2012
MUSEU HISTÓRICO MUNICIPAL TUANY TOLEDO: Imagens da cidade de Pouso Alegre Sul de Minas Gerais antigamente.
MUSEU HISTÓRICO MUNICIPAL TUANY TOLEDO: Imagens da cidade: Igreja Sao José- 14 GAC Acervo do MHMTT Catedral e Praça- Inicio do século XX Acervo do MHMTT Desfile- Década de 30 Acervo do M...
MUSEU HISTÓRICO MUNICIPAL TUANY TOLEDO: Marco do dia
MUSEU HISTÓRICO MUNICIPAL TUANY TOLEDO: Marco do dia: 24/08/1943: É expedido o aviso n° 411/348 da secretaria geral do Exército criando o campo de prisioneiros de Guerra em Pouso Alegre, no 8°R...
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Pássaro de Fogo
Pássaro de Fogo
“ No banco de Jardim o tempo se desfaz e resta entre ruídos a corola de paz...” Carlos Drummond de Andrade
Era fim de tarde quando eu mais Lucinha estávamos sentadas no banco do jardim admirando os ipês floridos da praça. Todavia, Lucinha fixou o olhar no extremo do canteiro descobrindo algo novo. Desde menina eu já conhecia que tal olhar significava encrenca.
Ela se levantou e foi na direção do seu objeto de desejo. Era uma exposição de arte. As pessoas admiravam as peças feitas com plástico reciclado. Uma em especial havia fisgado os olhos de minha amiga.
Lucinha rodava segurando-se no poste de sinalização. Pedia com voz meiga um autografo a fênix. Ela queria uma lembrança da figura de pássaro! O pássaro orgulhoso não se comovia com a doçura na voz de Lucinha.
Um guarda municipal aproximou-se para resolver o problema. Ele tentou, em vão, tirá-la daquele espetáculo. As pessoas à volta olhavam estupefatas, entretanto o pássaro continuava impassível.
Na alucinação de Lucinha o pássaro de plástico era uma fênix. Ela o via metade fogo, metade moço. Queria voar para longe com ele. Leve-me contigo. Pedia ela como uma fã incorrigível.
Ela queria voar para longe daquela realidade que a aprisionava. Mas qual realidade? Lucinha nasceu ambígua? Uma hora ela queria conversar com as amigas, na outra pedia autógrafos a pássaros.
Eu, boa amiga, não queria deixar Lucinha ali à mercê do escárnio geral. Lucinha ria e pedia para o pássaro atende-la. O guarda municipal sugeriu que chamássemos uma ambulância. Afinal, Lucinha não podia continuar na praça dando show.
Lucia Helena podia passear desde que comportada, calada e sem assustar as crianças. Ela não podia deslumbra-se com o mundo sem aviso prévio. Estávamos papeando e ela se perdia no sonho.
Tentei compreendê-la. Era um pássaro bem feito, observei. Obra pós-moderna que Lucinha quis animar. Ela encostou a varinha encantada e ele ganhou forças. Antes dela era um pássaro bonito, mas chato. Nem a peça mais especial eu considerava. Ele estava exposto à curiosidade banal dos passantes até que Lucinha deu-lhe vida! Logo que a ganhou o pássaro viu-se importante e esnobou sua animadora.
Vendo a necessidade de irmos para casa e antes que o guarda perdesse a paciência tive uma ideia. Lucinha vamos embora que está na hora de comprar merenda pro café! Disse encostando minha mão em seu ombro. Para de dar importância para este pardal. Disse. Pardal. Repetiu Lucinha despertando. Pois é! Vamos! Concordou a minha amiga.
A galera dispersou-se, mas antes ouvi algumas palmas. Grande performance a nossa.
“ No banco de Jardim o tempo se desfaz e resta entre ruídos a corola de paz...” Carlos Drummond de Andrade
Era fim de tarde quando eu mais Lucinha estávamos sentadas no banco do jardim admirando os ipês floridos da praça. Todavia, Lucinha fixou o olhar no extremo do canteiro descobrindo algo novo. Desde menina eu já conhecia que tal olhar significava encrenca.
Ela se levantou e foi na direção do seu objeto de desejo. Era uma exposição de arte. As pessoas admiravam as peças feitas com plástico reciclado. Uma em especial havia fisgado os olhos de minha amiga.
Lucinha rodava segurando-se no poste de sinalização. Pedia com voz meiga um autografo a fênix. Ela queria uma lembrança da figura de pássaro! O pássaro orgulhoso não se comovia com a doçura na voz de Lucinha.
Um guarda municipal aproximou-se para resolver o problema. Ele tentou, em vão, tirá-la daquele espetáculo. As pessoas à volta olhavam estupefatas, entretanto o pássaro continuava impassível.
Na alucinação de Lucinha o pássaro de plástico era uma fênix. Ela o via metade fogo, metade moço. Queria voar para longe com ele. Leve-me contigo. Pedia ela como uma fã incorrigível.
Ela queria voar para longe daquela realidade que a aprisionava. Mas qual realidade? Lucinha nasceu ambígua? Uma hora ela queria conversar com as amigas, na outra pedia autógrafos a pássaros.
Eu, boa amiga, não queria deixar Lucinha ali à mercê do escárnio geral. Lucinha ria e pedia para o pássaro atende-la. O guarda municipal sugeriu que chamássemos uma ambulância. Afinal, Lucinha não podia continuar na praça dando show.
Lucia Helena podia passear desde que comportada, calada e sem assustar as crianças. Ela não podia deslumbra-se com o mundo sem aviso prévio. Estávamos papeando e ela se perdia no sonho.
Tentei compreendê-la. Era um pássaro bem feito, observei. Obra pós-moderna que Lucinha quis animar. Ela encostou a varinha encantada e ele ganhou forças. Antes dela era um pássaro bonito, mas chato. Nem a peça mais especial eu considerava. Ele estava exposto à curiosidade banal dos passantes até que Lucinha deu-lhe vida! Logo que a ganhou o pássaro viu-se importante e esnobou sua animadora.
Vendo a necessidade de irmos para casa e antes que o guarda perdesse a paciência tive uma ideia. Lucinha vamos embora que está na hora de comprar merenda pro café! Disse encostando minha mão em seu ombro. Para de dar importância para este pardal. Disse. Pardal. Repetiu Lucinha despertando. Pois é! Vamos! Concordou a minha amiga.
A galera dispersou-se, mas antes ouvi algumas palmas. Grande performance a nossa.
Escada para o céu
Escada para o céu
Era uma viagem atípica. Todos iam calados no carro, a mãe de Tainá não ousava por nenhuma música no toca fitas. Viajavam rumo à Bom Sucesso, no sul do estado de Minas como faziam quase todas às férias escolares. Porém, desta vez, um carro fúnebre os seguia. Dentro dele o corpo da avó paterna de Tainá que morrera enquanto visitava a família.
Ao adentrar na cidade várias janelas se abriram para ver passar o carro fúnebre com o corpo de Dona Rosário. O cortejo foi seguindo pela rua da rodoviária até chegar à casinha branca de janelas verdes. A porta da sala estava aberta. Os parentes esperavam ansiosos.
Tinha chovido horas antes e a lama tomava conta da entrada da casinha velha. Tinha perdido o encanto que embalava as férias de Julho. No quintal imenso só as bananeiras enormes com seus cachos pareciam os mesmos. Terminava ali a infância de Tainá.
O choro incontido dos parentes invadiu a sala quando o caixão entrou. Alguns familiares mais exaltados acusavam os pais da menina de matar a avó. Porque Tainá havia convidado Dona Rosário para ir visitá-los no Norte de Minas. Espantados alguns amigos da família acomodavam-se para o velório, enquanto uma nora puxava o terço. Uma confusão geral.
Esquecida em meio a balburdia Tainá sentou-se em uma poltrona no canto da sala. Fitou a avó Rosário, envolta em flores naquele ambiente sinistro. Aquela sala já era mórbida para a menina. Ela se perguntava por que as tias-avós fizeram questão de colocar no oratório o retrato preto e branco da mãe defunta. Costume do povo antigo, dizia o pai de Tainá. Coitadinha da bisavó, morrer grávida! Compadecia-se a garota toda vez que fitava aquele destino triste. Na foto dava para notar a barriga grande.
- Do que será que ela morreu? Perguntou Tainá com olhos curiosos.
- Ninguém sabe. Respondeu o pai de Tainá transtornado com a situação.
- Naquele estado, provavelmente a bisa sofreu para subir a escada rumo ao céu. Disse Tainá deixando o pai sem entender.
Ela desviou o olhar da foto e voltou sua atenção para a avó.
Vovó também morreu, mas não parecia, pois seu semblante era sereno como se ela estivesse dormindo profundamente. Será que a vó já se encontrou com sua mãe? Perguntava-se.
A garota lembrou-se da vez que naquela mesma sala, no seu aniversário de sete anos, soube da existência da escada de Jacó.
Dona Rosário estava contentíssima por causa da festa que organizara para a neta querida. Pela manhã daquele quatro de julho encomendou o bolo na padaria e encarregou-se de providenciar os convidados. A mesma sala escura, repleta de dor, estava alegre aquele dia. A casa cheia de crianças que Tainá via pela primeira vez. São amiguinhos da vovó. Afirmava seu pai sorridente.
O bolo grande e branco foi colocado sobre a mesa. Os copos retirados de baús pela primeira vez iam ser usados. Enquanto a criançada corria envolta da casa. Tainá preferiu ficar um pouco mais na sala em companhia de Lola, uma das suas tias-avós.
Lola, amiguinha tão pequena, parecia mesmo uma criança. Pensava Tainá medindo a altura de ambas.
Nem naquele dia Lola parecia feliz. Todavia, no velório, os olhos verdes de sua tia avó estavam desesperados, como Tainá nunca tinha visto. Seu semblante estava perdido e choroso.
A menina muito se arrependeu de não ter ido brincar com as outras crianças lá fora no dia do seu sétimo aniversário! Maria chegou e imediatamente puxou assunto com algumas senhoras. Falavam sobre envelhecimento, idade e morte. Talvez o fato de estarem em um aniversário de criança suscitou-lhes tal questão, do mesmo modo que provocaram uma raiva tremenda em Tainá quando conseguiu ouvir o que falavam. “Estraga prazeres!” Pensava. Tainá, mesmo incomodada, ouviu a conversa interessada em desvendar o mistério do mundo que os adultos guardavam para si e não contavam às crianças. Não queriam assustá-las.
Elas falavam sobre uma escada para o céu, com forma de caracol, infinita, que cortava as nuvens. As almas subiam por ela até chegar à porta do Paraíso. A Porta do Éden onde estava, obviamente, São Pedro, o porteiro celestial que deixava, ou não, a pessoa passar.
Tainá imediatamente imaginou uma escada sem fim, na qual a pessoa exasperava-se em subir. A escada não possuía corrimão, mas acaso a pessoa se cansava de subir? Na dúvida Tainá aproximou-se mais e as senhoras perceberam seu interesse.
- E se a pessoa caísse? Perguntou Tainá.
- E se São Pedro impedisse sua entrada no céu? Indagou a mesma.
Diante disto, Maria respondeu que nesses casos, a alma ia passar uns tempos no purgatório ou ia imediatamente para o inferno. Maria, mal intencionada, chocava a menina com uma terrível descrição do inferno. Ela afirmava ainda, que tal causo podia ser confirmado na Bíblia. Terminou dizendo que a menina ainda era jovem demais para pensar nisto e que as crianças sempre iam para o céu quando morriam.
Lola ficou brava, porque a menina estava prestando atenção no que não era da conta.
Enfim, impressionada, Tainá saiu ao encontro de sua avó sufocando uma vontade de insultar Maria que a fizera pensar na morte, algo sombrio e desconhecido em um dia de festa, tão feliz. A garota contou tudo a vovó que deve ter ralhado as irmãs que assustavam sua única neta.
Vovó era especial como uma relíquia de um tempo de doçura. Pensou Tainá. Um filme rápido passou na mente dela, fazendo-a lembrar de uma porção de casos divertidos que as duas, passaram juntas.
A mocinha levantou-se da poltrona para olhar mais de perto o cândido rosto de sua avó, enquanto as tias-avós ficavam histéricas com a proximidade do enterro.
Tainá tocou a mão de sua avó, fez uma prece e disse a ela em tom de segredo.
- Eu sei que a senhora chegou aí em cima de elevador!
domingo, 26 de agosto de 2012
sábado, 25 de agosto de 2012
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Onde Mora Matilde?
Certa vez numa noite de insônia
minha avó contou-me uma pequena e fantástica história sobre maledicência:
Há séculos uma
comunidade formou-se num dos caminhos que os tropeiros usavam para cruzar a
Serra da Mantiqueira. Eram anos difíceis e a fofoca tornou-se mercadoria de
troca entre os seus habitantes. Logo ninguém mais comprava uma vaca, tratava
casamento ou abria conta em venda sem antes se dirigir à mestra das fofoqueiras.
A mulher era Matilde,
muito espirituosa e simpática que dava sempre um parecer. As suas sentenças
eram baseadas na experiência e no acúmulo de fragmentos desencontrados de conversas
captadas ao pé da janela. Eram longos dias de observação da rua.
Muito justa e
honesta tal mulher sempre apontava os defeitos das pessoas e dificilmente
comentava a própria vida. Jamais reclamava.
Certo dia
apareceu na rua principal do lugarejo uma mulher perguntando onde vivia Matilde
de tal. A mulher bem mais jovem dizia-se sua sobrinha. Mercedes ao encontrar a
casa começou a bradar aos quatro ventos os males que a tia lhe causara. Um
escândalo! A boa Matilde havia fugido fazia tempo da cidade natal levando tudo
que a família tinha.
A sobrinha
sentia uma maldade imensa crescendo dentro do ventre, enquanto denunciava os
desaforos que Matilde cometera. Aquele sentimento rebentando a garganta era
maldade mesmo? Era um broto saído do cantinho mais fundo das entranhas. Vinha
crescendo lentamente, enquanto a sobrinha traída falava. Entretanto, ainda doía
contar para toda a gente que parava para escutar. Não surtia efeito positivo descrever
os atos perversos daquela mulher supostamente honesta. Mercedes não sentiu o
alívio que imaginou durante anos que invadiria sua alma erodida, tão pouco, raiva.
Era tarde, a alma dela não se recuperaria como supunha. Nem um riso de desespero
ou falsa alegria vinha iluminar seu rosto transtornado. A percepção da imobilidade
de sua condição fincou. O ressentimento que guardava a arrebatou.
Matilde; a
julgada demonstrava uma estranha alegria, mesmo a sobrinha afrontando-lhe
defronte a sua casa. Apenas ouvia da janela em que sempre acompanhava o
movimento. Nada respondia. Afinal, todo o mal que poderia causar aquela
criatura que estava a sua frente estava completo. Os anos amorteceram todas as más
ações passadas. A sua atual figura franzina acobertava cada pequena maldade. As
grandes cairiam mais rapidamente no esquecimento. O tempo envelheceu aquelas
histórias tristes e confusas ditas pela sua pobre sobrinha. As testemunhas
estavam mortas ou a léguas dali o que dava no mesmo. Matilde ria-se por dentro,
porque apesar daquele julgamento público, sua vida correria bem. Ela era feliz.
Nenhum arrependimento. A idade e o rosto
franzino marcado de rugas a inocentavam. Soberba, não arredava dali.
Mercedes
sentia suas fortes dores no ventre novamente. Era o remorso fluindo vivo. Afinal,
era sua Tia. Porém, não podia voltar. Torcia-se e sentia náuseas, mas ninguém
veio ao seu auxílio. Num instante as dores cessaram e quando se deu conta havia
regugitado um espelho.
O doador misterioso
Uma história surpreendente aconteceu há alguns meses no distrito de Lagoinha na divisa entre o sul-doeste de Minas Gerais e São Paulo. Todos os moradores ficaram estupefatos com o fato que mobilizou pessoas de diversas cidades e mudou a rotina do lugar por cerca de um mês.
Num dia corriqueiro o sacristão, um homem muito gordo e falante, abriu a capela local e encontrou uma imagem chorando um líquido misterioso. Surpreso com a novidade o homem chamou o jovem pároco local, porém, antes que este pudesse analisar o ocorrido, vários habitantes avisados pelo sacristão, acumularam-se na porta da capela para ver a santa chorosa.
Após quatro dias o líquido tornara-se mais espesso e escuro algo que os locais já chamavam de sangue. Uma peregrinação inundou o pequeno distrito de seiscentas casas causando tumulto nas ruas de terra sem infraestrutura para suportar os ônibus abarrotados de fiéis. Uma multidão se acumulou na praça em frente à capela atropelando as pobres roseiras, pisoteando a grama e quebrando os galhos para subir nas árvores. Não demorou a imprensa de todo o estado de Minas foi cobrir o evento enigmático, ao passo que chamava especialistas para explicar o fato.
Ocorre que meses antes apareceu um homem desconhecido carregando a imagem e a doou a capela. Era uma capela antiga com pinturas que mereciam ser preservadas. A madeira estava podre, os bancos rotos e a instalação elétrica preocupante. Na esperança de reformar a capela o padre havia colocado uma caixa de madeira protegida apenas com um cadeado para arrecadar fundos. Até que um dia a nova imagem chorou. Devido ao tumulto que se seguiu a misteriosa novidade o padre não atinou em conferir mais o tal “cofre” em prol da reforma. O jovem padre estava muito ocupado seguindo todos os tramites que cercam tais casos para não se precipitar em alguma declaração.
A imprensa cada vez mais explorava o caso, um apresentador famoso de uma rede de tv nacional cogitava ir de helicóptero numa breve visita ao local. Todavia, as lágrimas desapareceram. A peregrinação continuou na esperança que o evento se repetisse dias depois. Cessou definitivamente.
Na segunda feira seguinte o sacristão foi abrir a capela pela manhã e novamente a sua cara de bocó repetiu-se desta vez por outro motivo. Alguém havia arrombado a igreja. O ladrão roubou a imagem e não só ela. O cofre abarrotado de donativos das semanas anteriores estava arrebentado no chão. O pobre homem indignado sentou-se na porta da igrejinha e chorou.
A polícia não achou os ladrões, tão pouco recuperou algo. O padre desolado não conseguiu a esperada reforma e mudou-se de paróquia. A mídia mal noticiou o desfecho do caso. A praça ficou destruída, mas os moradores de lagoinha pedem até hoje é que devolvam a imagem.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Cordas
Quando a ponta de uma vida te encontra
Quer contar o mundo
Quiçá prever o futuro
Reflexos de morno crepúsculo nas retinas
Deseja desvendar segredos
Quando as pontas da corda se unem para uma cantiga
Eu ainda quero cantar
Quer contar o mundo
Quiçá prever o futuro
Reflexos de morno crepúsculo nas retinas
Deseja desvendar segredos
Quando as pontas da corda se unem para uma cantiga
Eu ainda quero cantar
Atalho das Almas
Em Conceição da Prata Minas Gerais eram sete horas da manhã quando um toc toc ecoou do alto-falante da Igreja Matriz. Era a introdução da música que precedia os anúncios de falecimento. Anunciaram o nome do morto, mas os habitantes da cidade presumiram se tratar de “gente de fora” porque ninguém conhecia aquele sujeito. As beatas curiosas perguntaram se o falecido não possuía nenhum apelido que o pudesse identificar melhor ou uma alcunha de família que substituísse aquela incógnita. O sacristão fechou a cara e se recusou a dar maiores informações.
Na praça, as pessoas continuavam indiferentes à nota de falecimento, pois se fosse gente importante, o velório seria na câmara municipal e certamente não era o caso, pois a bandeira municipal continuava completamente hasteada. No salão de beleza da esquina as mulheres comentavam sobre a funesta música que ecoou da igreja, coisa que não se ouvia há muito nas cidades em redor.
O que era mesmo aquele toc toc? A manicure perguntou brincando. Na porta do céu não há campainha!? E uma risada geral dominou as mulheres alheias àquela morte distante.
Enfim, numa terça-feira ensolarada não havia clima para luto naquela cidade trabalhadora. Somente as carpideiras e a “encomendadora” oficial de almas da paróquia estavam desesperadas a caça do velório. Naquela cidadezinha qualquer endereço que não estivesse no limite de quatro quadras ao redor da Igreja de Nossa Senhora da Anunciação era considerado bairro. Quanto maior a distância, maior a dificuldade de achar.
O primeiro passo era rever o endereço do defunto. O desencarnado estava internado há dias em uma cidade vizinha, portanto, era necessário esperar pelo corpo. Grande ansiedade tomou conta das beatas.
Prepararam uma estratégia: enquanto as senhoras aguardavam a chegada do corpo, esperavam orando na igreja.
Surgiram diversos comentários ao longo da manhã: A demora era causada pela má vontade da família do finado! Os médicos identificavam a moléstia rara que vitimou o homem! ? A tal doença contagiosa rara necessitava caixão fechado e enterro rápido. Já tinha sido enterrado na outra cidade mesmo... O homem era de outra religião, agnóstico ou pior ateu? Entretanto, não havia nenhum detalhe a respeito do morto, nenhuma fofoca picante, ou escândalo para incrementar a conversa.
A apreensão era crescente dentro da igreja. Eis que às duas horas da tarde a mulher que estava de vigia apareceu na porta. Era o sinal. Do alto da avenida desciam rumo ao cemitério quatro homens solidários que seguravam as alças do caixão de madeira clara.
Depois de tanto tempo de espera, o homem ia ser enterrado assim, sem cerimonial, sem uma flor, sem parentes, somente com os companheiros que levavam o caixão. Este fato consternou as mulheres. Ele estava no asilo? Bem, não importava. O pobre necessitava ainda da ajuda delas dedicadas a confortar os parentes do morto e, na falta destes, de pedir humildemente que fosse logo aos céus aquela alma. Colocaram-se em marcha atrás dos homens que seguiam em frente, já a certa distância. Todo o cerimonial ia ser feito, passo a passo, no caminho restante ao cemitério.
Ao verem as beatas, os passantes olhavam assustados para a morte que passava assim num dia de semana, em plena hora do expediente. Na praça, algumas meninas consternaram-se de ver Dona Luzia rezar por um indigente... Diante dos comerciantes da avenida principal, os rostos cansados daqueles homens de carregar aquele caixão pesado. Imediatamente, baixaram-se as portas dos comércios, os amanuenses saíram da prefeitura para olhar do passeio público, senhoritas fitaram das janelas de suas casas.
Enquanto a população de Conceição da Prata concentrava-se no enterro do indigente que recebia as últimas homenagens, quase à porta do cemitério os quatro homens viraram a esquina. Os homens seguiram com o caixão vazio para buscar outro morto que acabara de ser liberado pelo hospital.
Em Conceição da Prata Minas Gerais eram sete horas da manhã quando um toc toc ecoou do alto-falante da Igreja Matriz. Era a introdução da música que precedia os anúncios de falecimento. Anunciaram o nome do morto, mas os habitantes da cidade presumiram se tratar de “gente de fora” porque ninguém conhecia aquele sujeito. As beatas curiosas perguntaram se o falecido não possuía nenhum apelido que o pudesse identificar melhor ou uma alcunha de família que substituísse aquela incógnita. O sacristão fechou a cara e se recusou a dar maiores informações.
Na praça, as pessoas continuavam indiferentes à nota de falecimento, pois se fosse gente importante, o velório seria na câmara municipal e certamente não era o caso, pois a bandeira municipal continuava completamente hasteada. No salão de beleza da esquina as mulheres comentavam sobre a funesta música que ecoou da igreja, coisa que não se ouvia há muito nas cidades em redor.
O que era mesmo aquele toc toc? A manicure perguntou brincando. Na porta do céu não há campainha!? E uma risada geral dominou as mulheres alheias àquela morte distante.
Enfim, numa terça-feira ensolarada não havia clima para luto naquela cidade trabalhadora. Somente as carpideiras e a “encomendadora” oficial de almas da paróquia estavam desesperadas a caça do velório. Naquela cidadezinha qualquer endereço que não estivesse no limite de quatro quadras ao redor da Igreja de Nossa Senhora da Anunciação era considerado bairro. Quanto maior a distância, maior a dificuldade de achar.
O primeiro passo era rever o endereço do defunto. O desencarnado estava internado há dias em uma cidade vizinha, portanto, era necessário esperar pelo corpo. Grande ansiedade tomou conta das beatas.
Prepararam uma estratégia: enquanto as senhoras aguardavam a chegada do corpo, esperavam orando na igreja.
Surgiram diversos comentários ao longo da manhã: A demora era causada pela má vontade da família do finado! Os médicos identificavam a moléstia rara que vitimou o homem! ? A tal doença contagiosa rara necessitava caixão fechado e enterro rápido. Já tinha sido enterrado na outra cidade mesmo... O homem era de outra religião, agnóstico ou pior ateu? Entretanto, não havia nenhum detalhe a respeito do morto, nenhuma fofoca picante, ou escândalo para incrementar a conversa.
A apreensão era crescente dentro da igreja. Eis que às duas horas da tarde a mulher que estava de vigia apareceu na porta. Era o sinal. Do alto da avenida desciam rumo ao cemitério quatro homens solidários que seguravam as alças do caixão de madeira clara.
Depois de tanto tempo de espera, o homem ia ser enterrado assim, sem cerimonial, sem uma flor, sem parentes, somente com os companheiros que levavam o caixão. Este fato consternou as mulheres. Ele estava no asilo? Bem, não importava. O pobre necessitava ainda da ajuda delas dedicadas a confortar os parentes do morto e, na falta destes, de pedir humildemente que fosse logo aos céus aquela alma. Colocaram-se em marcha atrás dos homens que seguiam em frente, já a certa distância. Todo o cerimonial ia ser feito, passo a passo, no caminho restante ao cemitério.
Ao verem as beatas, os passantes olhavam assustados para a morte que passava assim num dia de semana, em plena hora do expediente. Na praça, algumas meninas consternaram-se de ver Dona Luzia rezar por um indigente... Diante dos comerciantes da avenida principal, os rostos cansados daqueles homens de carregar aquele caixão pesado. Imediatamente, baixaram-se as portas dos comércios, os amanuenses saíram da prefeitura para olhar do passeio público, senhoritas fitaram das janelas de suas casas.
Enquanto a população de Conceição da Prata concentrava-se no enterro do indigente que recebia as últimas homenagens, quase à porta do cemitério os quatro homens viraram a esquina. Os homens seguiram com o caixão vazio para buscar outro morto que acabara de ser liberado pelo hospital.
domingo, 25 de dezembro de 2011
Estou viva!!
Depois de muitos meses conturbados estava procurando por minhas coisas na net e me ocorreu que devido ao longo tempo que não entro em contacto poderiam achar que estou morta! Não estou! Os dias de cão ainda existem, porém ainda escrevo nem que seja em um caderninho! Beijos! Bom Natal!! Desejem sorte para mim na minha new life!! Nada melhor que um ano novo! Logo digitarei meus mais novos escritos! A dor de um amor perdido, extinto ou paraguaio inspira muito!!Oh si!!Vamos explorar mais! O que fazer quando os medo se realizam? Mil beijos aos meus seguidores!! Eu não quero ser o que não sou, mas se os meus anceios perturbam é porque há pobreza de alma! Quero sempre aprender mais!!
domingo, 12 de junho de 2011
Roupa Nova
A música Roupa Nova fez meu pensamento voltar à casa dos meus bisavós em Bom Sucesso no interior de Minas. Casa branca de janelas verdes e esquecida no tempo onde várias histórias até agora borbulham. Por trás do ambiente convidativo no inverno, havia na cozinha o fogão à lenha aceso e estava pronto para passar um café, havia um gosto de decadência evocado pelos móveis antigos aos pedaços.
No sofá da sala, simples, sem televisão, Sá Flor recepcionava as visitas e ressabiava desavisados. Ela era tão esquecida que de minuto em minuto perguntava o nome das pessoas e me confundia com as inúmeras meninas que viu na vida. Deste modo se esvairam também os causos da fazenda que eu tanto anseei ouvir.
No quarto das solteironas os baús guardaram esperanças de um bom casamento, mas surreal era aquele quintal imenso cheio de bananeiras, pés de café, flores, enfim, onde haviam tantos mistérios imaginários, quanto um bosque.
Dentre tantos fatos e personagens Quinha era o ser extraordinário. O homem passava os dias trancado no quarto. Era baixinho de uns luminosos olhos verdes que contrastavam com a pele curtida de sol. O cabelo liso e preto estava sempre emprastado de gel. Ele não conversava, e por isso, Quinha era mais insignificante que o oratório da sala, porém foi um das pessoas que mais alimentou minha curiosidade na infância. Eu imaginava inúmeras desventuras para a vida dele. Ele não despertava interesse na família, era quase invisível. Acho que era a sua intenção!
Ninguém oferecia café ao Quinha, o aroma do café passado despertava-o do seu topor habitual. Depois de assuntar pela fresta da porta ele saia do quarto, tomava café e sorrateiro ia fumar seu cigarrinho de palha lá fora. As irmãs entregavam-lhe a roupa limpa passada e pegavam a suja no banheiro. Diziam somente que ele havia se aposentado.
Era um homem triste, talvez um grande desiludido, beirando a loucura. O andar arrastado de fina melancolia. Será que Quinha tinha amigos? As pessoas não o compreendiam... Eu, visita sapeca o seguia com os olhos por toda a casa e sorria com simpatia. Simpatia ou pena?Agora já não importa se eu o agradei ou ofendi. Havia esperança de uma palavra, mas ela não veio. Eu também nunca me atrevi a dizer algo.
Entretanto, antes de ser o enigmático Quinha, Joaquim foi um homem promissor. Uma dessas pessoas inteligentes que a família menciona com orgulho e as moças almeijam um bom partido. Quando moço foi trabalhar num grande banco em Belo Horizonte. Tinha planos, sonhos, lia muito, escrevia, pintava, cultivava esperanças de crescimento profissional, Quiçá !? Dai um dia ele apareceu em casa sem avisar. Havia abandonado o emprego sem explicações. Nunca voltou à Belo Horizonte, não trabalhou mais e por fim não desejou tocar no assunto. Calou-se para sempre!
Toda essa história porque essa semana cismei com Pinduca da música Roupa Nova do Milton Nascimento. Pinduca é o oposto das personagens com os quais eu me deparei na minha infância, entretanto, ele fez reviver o Quinha. Encanteei-me com a letra da música. O Pinduca me lembrou Quinha por conta de algo que faltou ao segundo e que eu queria trasmitir-lhe no sorriso de menina: a renovação da fé, esperança! Meu tio-avô precisava de uma roupa nova...
terça-feira, 30 de novembro de 2010
A oração
“Sciens Jesus quia venit hora ejus, ut transeat ex hoc mundo ad Patrem: Sabendo Jesus que era chegada à hora de passar deste mundo ao Padre. — Isto disse o evangelista, falando dos mistérios da última Ceia, em que Cristo, com o maior prodígio da sua humildade, e com o maior milagre da sua onipotência, manifestou aos homens qual era o extremo com que os amava”. Padre Antônio Vieira.
A oração das dezoito horas tocava no rádio. Isa apreciava a prece cantada sem entender palavra, mas um dia sua mãe lhe explicou que era latim, a língua dos romanos. Idioma antigo conservado em alguns missais e cerimônias da Igreja. A mãe de Isa explicou num misto de professora e mãe. A menina não entendia a oração por se tratar de uma língua morta.
Entretanto, a menina não compreendeu bem os esclarecimentos de sua mãe . As palavras da hora do anjo para ela faziam parte de um cântico belo, que a fascinava profundamente. Era um momento mistico onde ela podia sentir uma leva brisa, uma inexplicável paz.
Como pode estar morta se ainda cantam? Perguntava-se a menina.
A menina não largou o costume de todas as tardes vir correndo do fundo do quintal para ouvir a prece.
- Gracia plena, Maria Gracia plena, Benedict tato... Isa repetia de olhos fechados, apoiando o rosto com as mãos e posicionada em frente ao antigo aparelho de rádio sintonizado na AM.
Como devia ser bonito o tempo dos anjos. Os anjos louvavam assim cantando... Pensava a menina.
A avó observava contente a devoção infantil e explicava a Isa que aquela oração era a mesma Ave Maria que elas rezavam antes de dormir.
A menina gostava mesmo era da música que tornava a simples prece num sublime momento e a acalmava. Imaginava o céu, seus lindos campos e seu anjo da guarda. Ela queria que o seu anjo viesse vê-la. Os anjos de Isa tinham rostos pueris e assas douradas, iguais aos anjos barrocos das igrejas de Ouro Preto. Bem, talvez, refletia a menina, nem todos os anjos fossem daquele jeito.
Alguns deviam ser gorduchos e sardentos outros morenos. Devia ter anjos compridos e anjos velhos.
O mais próximo de uma figura angélica que Isa podia acreditar era a sua avó.
A menina via a avó penteando os cabelos longos iluminado-se, ela definitivamente não possuía assas, todavia, Isa via a avó com tal ternura que esta ótica a transmutava em uma figura angelical. Para Dona Isabel o anjo era Isa.sábado, 30 de outubro de 2010
Diabo azul
O Diabo Azul
Um velho magricela seguiu Ana durante um tempo. Ele usava apenas um short jeans curtíssimo e calçava chinelas de tiras azuis. Fazia muito calor e o homem sussurrava palavras inaudíveis. A mulher não sentiu medo, porque conhecia por alto a história daquele homem. Por que a desgraça dele já havia chegado aos seus ouvidos? Não lembrava mais o nome do velho, mas ele numa última tentativa de aproximação parou no passeio, pôs as mãos na cintura e fez uma pergunta. Qual seria? Ana não compreendeu e sentiu-se culpada por ignorar aquele homem só, que esturricava no sol de três da tarde. Na loucura daquele homem havia sentido? Sim. Pensou Ana que se virou para examinar a figura pequena ao longe ainda parada com as mãos na cintura.
Ana caminhava apressadamente vez ou outra olhando ao redor, mas não havia nada familiar, as pessoas, os bichos a paisagem tudo era novo. Ela caminhava pelas ruas de uma cidade estranha. Este pensamento dominou-a. A novidade já não a encantava, ao contrário sentia-se perdida como a interrogar um desconhecido com as mãos na cintura, só que numa rua escura.
Achou a praça onde tinha marcado de encontrar-se com o marido. Logo ele ia buscá-la. Avistou no fim da rua uma banca de revista e suspirou aliviada, afinal não estava tão sozinha quanto temia. Comprou a revista de História preferida e foi ler sentada num banco onde havia uma densa sombra. Ela ergueu a cabeça para observar melhor a copa das árvores, unas floridas outras nem tanto, mergulhou no verde ao ouvir o canto dos pássaros que pareciam vir de longe, de outras praças em outros dias ensolarados. No instante seguinte pareceu que tudo rodava e Ana sentiu que ia desmaiar. Entretanto, ela permaneceu sentada admirando aqueles ipês amarelos floridos que mirava pela primeira vez. Era impressão ou o pensamento nostálgico a fizera rodar para levá-la para longe. Estava decepcionada por saber a inutilidade e o malefício daquilo. Era impossível retornar. Ana respirou fundo o aroma fresco da tarde, enquanto guardava as lembranças suscitadas pelo verde. Depois examinou as fotos da revista. Mostravam desde as primeiras civilizações italianas até o Renascimento. A Itália dos muitos sítios arqueológicos. Um país longínquo, desconhecido, com o mar mediterrâneo banhando ao sul. Ana viu o mapa e recordou a professora que não cansava de repetir que a Itália tinha o formato de uma bota prestes a chutar uma bola. Quando sorriu percebeu que um homem a observava atentamente e que seu gesto o encorajou a se aproximar.
- Não pude deixar de notar como a leitura a absorve. Afirmou o velho bem vestido de barba comprida e óculos fundos.
- Eu também aprecio ler ao ar livre, sobretudo sem compromisso. Continuou.
Ana não viu graça no homem. Parecia saído de um retrato do começo do século XX. Além do mais tinha ar antipático e com um sei que de desajustado.
Ela limitou-se a sorrir e continuou a folhear a revista. Até que o homem a interrompeu novamente.
- Estás convencida de que o diabo é azul?
A mulher estranhou a pergunta e se lembrou do velho louco de short que vira no caminho. Mais um pensou. Só que esse não é famoso o suficiente, porque ainda não vieram contar-me suas desgraças. Ela respondeu calmamente.
-Pode ser, como também pode ter de tudo quanto é cor. Vale a imaginação!
O homem não gostou da resposta e replicou.
- Mas é certo que esse povo antigo não se baseava apenas na imaginação. Eles tinham motivos para representar assim...
- Claro! Os Etruscos passaram a representar o diabo assim depois da ameaça Romana. Ao menos os especialistas explicam desse modo. Respondeu Ana.
- Os especialistas acham que tem resposta para tudo. Disse o velho.
- Você sabe que ninguém nunca vai saber. Talvez eles desenhassem assim porque viram um.
Ana pensou em teimar com o velho, mas ele dizia tudo com voz terrível, os olhos arregalados debaixo dos óculos e com os antebraços para trás dando voltas em torno dela como um professor que quer impingir a lição.
- O senhor conhece o conteúdo desta revista? Perguntou.
- Sim. Eu também já estive na Itália e visitei muitas ruínas.
Eu mesmo já vi um desenho desses. Apontou para a gravura da revista.
- Um diabo azul? Perguntou Ana.
- Já. Respondeu.
- Pois se tem até gente azul por ai. Completou.
- Ela se sentiu intimidade e ferida. Por que o homem viera para atormentá-la? Ela que há pouco bebia as sensações da infância na verdura da praça. Logo ela tão suscetível a certos causos. Certamente não dormiria bem à noite. Foi com tal inquietação que ela respondeu:
- Eu infelizmente ainda não pude ir à Itália matar minha vontade de conhecer um pouco da Antiguidade de perto.
- É tudo terra. Disse o homem com um ar de desdém, mas que já conheceu o mundo.
Ela se enfureceu com o ar de superioridade do homem. Ela levantou-se do banco e caminhou rumo a banca de revistas. Quis ligar para o marido. Porque ele demorava, entretanto o velho caminhava ao seu lado perguntando sem parar.
- Há tantos diabos para nos tirar a paz! Disse para espantar o homem.
- Acha-se especial? Perguntou o velho
- Eu sei que não sou boa. Constatou Ana.
- Por que comprou uma revista que te aborrece? Perguntou o velho novamente.
- Não é a revista. Eu amo ler sobre esses assuntos.
- Mas você não gosta de ouvir a verdade! Sentenciou o velho.
- Você se lembra do doido que você desprezou mais cedo? Perguntou novamente.
Ana sem ação olhava para o homem. Como ele sabe disso! Pensou em dizer. Mas não respondeu. Ao chegar na banca o velho desapareceu.
domingo, 10 de outubro de 2010
A criança e a mãe
Presença
Priscila não sabia descrever a estranha sensação que indicava a presença de um parente. A mesma que sentia, quando uma amiga se aproximava da casa dela. Intuição? Priscila reconheceu a mãe de longe.
A mãe acabara de sair da loja e agora caminhava tranquilamente pela calçada.
- De longe parece tão pequena. Priscila pensou.
Dona Ana levava duas sacolas e a bolsa pendia imprudentemente para trás. Priscila quis correr para alcançá-la, para dar-lhe um forte abraço como nos velhos tempos. Porque não? Não. Ela estava atrasada para buscar Raquel na escola. Priscila inventou tantas desculpas como se alguém desaprovasse tal atitude. Ela observou a mãe até desaparecer virando a esquina.
- Que má vontade você tem para fazer as coisas Raquel! Priscila repreendia a filha que puxava sua grande mochila de rodas cor de rosa. Um castelo e uma princesa...
Nada haver com nossa realidade. Pensava Priscila que não conseguiu fazer sua filha escapar das mesmas armadilhas do consumismo que ela caía quando criança.
Então, chegou o dia em que seus professores falaram sobre cultura brasileira,Idade Média, Europa, mercado, publicidade e tantas outras coisas que Priscila percebeu, o quão estavam distantes aquelas histórias com castelos medievais.
Priscila tentou inutilmente explicar a Raquel os motivos para não comprarem a mochila cor de rosa. Não era por avareza, embora a mochila fosse cara e o material ruim. Onde podemos encontrar um castelo medieval? Nenhum argumento resolveu o impasse. Raquel era como uma bonequinha programada para querer justo aquilo que a mãe não queria.
As duas caminhavam para casa, Raquel arrastando seu sonho encantado e Priscila com remorso por não ter ido atrás da mãe. Uma mecanica conversa surgiu:
- Como foi sua aula hoje? Priscila perguntou.
A menina arregalou os olhos como se ouvisse uma voz fantasmagórica perguntando.
- Boa. Respondeu
- A professora viu o dever de matemática que eu ajudei você a fazer? Perguntou Priscila com ar interessado.
- Viu. Tava tudo errado. Você me ensinou errado! Respondeu Raquel.
O rosto de Priscila ficou vermelho. Ah é bom saber. Da próxima vez pede para o seu pai ajudar.
A menina parou no passeio e abriu a mochila. Tirou de dentro um caderno de desenhos com folhas de cetim entre as de sulfite.
- Olha o que eu fiz na aula hoje. Esticou o braço e entregou o caderno para a mãe
- O que são esses pontos marrons que você colocou aqui embaixo
- Estragou a flor. Afirmou Priscila entregando o caderno para a filha. Raquel pegou bruscamente seu caderno de volta.
- São formiguinhas, mãe! Respondeu
As duas deram as mãos e atravessaram a rua. A sombra de mulher estava ao lado da pequena.
- Mãe! Chamou Raquel.
Priscila fitou aqueles olhinhos castanhos cheios de doçura. A vida dela era diferente. Ela também era mãe.
Isolda
Boneca Isolda
Toca o berrante velho, Isolda!
E feliz, e leve, e frouxa
Brinca no ar a cabeleira solta
Boneca de pano, boneca de louça.
Frágil bibelô que cora à toa
O que será de ti bela?
Finos traços, amores bordados
Guarda bem teus segredos de moça
Gira no ar, traspassa e voa...
Roda o vestido de seda velha
Ampara a esperança doura
Toca o passo breve
Sonha a fortuna vindoura
Donzela; tua sorte é outra!
Toca o berrante velho, Isolda!
E feliz, e leve, e frouxa
Brinca no ar a cabeleira solta
Boneca de pano, boneca de louça.
Frágil bibelô que cora à toa
O que será de ti bela?
Finos traços, amores bordados
Guarda bem teus segredos de moça
Gira no ar, traspassa e voa...
Roda o vestido de seda velha
Ampara a esperança doura
Toca o passo breve
Sonha a fortuna vindoura
Donzela; tua sorte é outra!
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